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#ELRFEAT: Entrevista a Joesér Alvarez (2017)

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O ELR – Electronic Literature Review (Revista de Literatura Eletrônica) tem a felicidade de publicar esta entrevista realizada por Maíra Borges Wiese, doutoranda do programa “Materialidades da Literatura“, da Universidade de Coimbra. A entrevista com o multiartista brasileiro Joesér Alvarez inicia a nova série deste blog, a divulgação de entrevistas escritas por outros.  #ELRFEAT

 

Maíra Borges Wiese: Poderia nos contar como chegou a se interessar em criar poemas, no começo do anos 2000, com os recursos multimídia do computador?

 

Joesér Alvarez: Depois de um flerte com alguns poemas concretos e outros visuais, bem como, ao abrirem-se as possibilidades de novas experimentações com animação em flash e vídeo, ou seja, quando os recursos necessários (hardwre & software) começaram a chegar em minhas mãos é que comecei a fazer os primeiro experimentos em poesia digital.

 

Maíra Borges Wiese: O seu manifesto «Escalpoético» (2002) tem um caráter notadamente antropofágico, mas poderíamos dizer também “digital” (por ser algumas das principais características presentes na produção de objetos digitais a remediação, o aproveitamento, a colagem, etc): “interferência e apropriação”/ “ponte entre o tipográfico e o eletrônico”/ “sincronia-diálogo com o estabelecido”/ “o passado presente”/ “autoria contrautoria diautoria transautoria”/ “palimpsesto virtual”/ “take it new!”. Como você vê esse aspecto em suas experimentações digitais?

 

Joesér Alvarez: Principalmente com os olhos. Mas, brincadeiras à parte, a antropofagia, depois de 22 é uma regra sem excessões para quem quer criar algo dentro de uma cultura tão diversificada como a brasileira. O digital é antropófago por sua própria natureza: saber utilizar um sampler talvez, seja o espírito da coisa.

 

Maíra Borges Wiese: Para você, qual o grande diferencial dos recursos digitais na produção de poesia? Em outras palavras, por que criar poemas multimídia, e não os “tradicionais”, impressos? (poderia comentar tomando como referência alguns de seus trabalhos, como “Oraculum” (2004) e “Scalpoema” (2001)?)

 

Joesér Alvarez: O grande diferencial é  a variação de mídias, efeitos estéticos e sonoros que encorpam uma proposta aparentemente simples, complexificando sua recepção. Por que criar poemas multimídias? Por que a possibilidade está posta – é um desafio. Por que ir aonde todos já foram? Por que não conhecer outras possibilidades? E, se vc pode abrir novos caminhos ou tecer novas tramas, eis um desafio interessante, melhor que trilhar os já consolidados caminhos. Oraculum e Scalpoema, por exemplo, são possibilidades poéticas e estéticas que não se dizem da maneira tradicional, impressa, e são mais ricos em sua forma digital, plástica e sonora. Penso que uma das  missões do poeta, se é que essas existem, seria criar um cardápio variado, inusitado, que provoque não só a reflexão, mas também um estranhamento crítico. E esse tipo de reação tem que começar com o próprio criador em seu fiat lux.

 

Maíra Borges Wiese: Seus últimos poemas digitais foram feitos ainda na primeira década dos anos 2000. Alguma razão por não ter desenvolvido mais trabalhos desse gênero? Considera ainda restrito o interesse por obras literárias digitais?

 

Joesér Alvarez: Não. Meus últimos poemas digitais estão sendo realizados desde 2013, e são hiperlinkados através de um vocabulário semântico em construção – chamando-se provisoriamente de “Haikunins”, ou “haikais bakhunianos” – versos com pretenções anarco-políticas. Um processo, projeto, enfim, uma experimentação. Outras experimentações tem se dado com a utilização do unicode, na própria página do projeto e em outras plataformas, mas sem pretensão alguma a não ser a experimentação pessoal, uma escolha estética, também em processo.

Razões para não desenvolver mais trabalhos nesse gênero não faltam – o que falta muitas vezes são razões para desenvolver novos poemas digitais, novas abordagens. Então, como essas razões tem mais a ver com intuição, deixo que aterrisem no devido tempo, quando surgem, sem me impor qualquer rtitmo de produção que não seja o do desejo. Sem dúvida penso  que o interesse por obras literárias digitais é restrito, que há um reduzido público, e que esse panorama pode mudar futuramente. Mas, como meu foco não tem sido o público, e sim a obra, não perco muito tempo pensando a respeito, pois para mim, essa seria uma questão secundária – em 1º a criação.

 

Maíra Borges Wiese: Mantém algum interesse pela literatura/poesia digital? Se sim, quais autores, no Brasil e no mundo, mais lhe chamam atenção?

 

Joesér Alvarez: Sim, sem dúvida. Gosto muito dos trabalhos de Jorge Luiz Antônio, Regina Pinto, Mello e Castro, Jim Andrews, Clemente Padín, bem como de muitos outros autores ligados à poesia visual e concreta.

 

Alguns trabalhos de Joesér Alvarez:

«Scalpoema» (2001)

«Agora» (2001)

«Oraculum» (2004)

«Cuba» (2004)

Participação em «Ovelhas de Quixotes» (2006)

 

Resumo biográfico

Natural do Rio de Janeiro/RJ, 1962. Vive e trabalha na Amazônia (Rondônia) desde 1982. Criador e Coordenador do Coletivo Madeirista, e Coordenador do Ponto de Cultura ACME, atua principalmente nas seguintes temáticas: net.art, network, cinema e vídeo digital, intervenções urbanas, site specific, performance, fotografia, literatura, gravura, design gráfico, cerâmica, artivismo, patrimônio imaterial e produção cultural.

 

Formação:

Bacharel em História pela UNIR – Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho/Brasil, 2002;

Pós-Graduação em Jornalismo e Mídia pela UNINTES – Porto Velho/Brasil, 2003;

Pós-Graduação em Artes Visuais, Cultura e Criação – SENAC, Pólo Cuiabá, 2013;

Pós-Graduando em Cinema – Estácio de Sá/RJ, 2017;

 

Written by ELR

May 20, 2017 at 10:00 am

Entrevista a Rui Torres

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ELR: Rui Torres, começou a estudar e a criar obras de literatura digital em 2004. Como se envolveu neste campo e de onde veio a inspiração?

RUI TORRES: Comecei um pouco antes, talvez em 1998, embora sem publicação imediata. Estas coisas levam o seu tempo a maturar e a desenvolver, pois envolvem processos novos, exigem muito tempo de conceptualização, desenho e programação… De qualquer modo, a inspiração foi a obra de Pedro Barbosa (utilização de procedimentos combinatórios e generativos na ciberliteratura), E. M. de Melo e Castro (teoria e prática da poesia experimental) e Herberto Helder (montagem textual), em Portugal, mas também o trabalho de Philippe Bootz em França… De um modo geral, interessa reconhecer que a intermedialidade que encontrei no futurismo, no concretismo, na poesia visual…. foram fundamentais para a dissolução de um conceito rígido de texto. As propostas de John Cage, nesse sentido, estão na base de tudo isto. Envolvi-me neste campo porque fui aluno do Pedro Barbosa, tendo estado presente na altura em que ele fundou o Centro de Estudos sobre Texto Informático e Ciberliteratura na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, em 1996, talvez o primeiro Centro de I&D dedicado ao estudo da literatura electrónica… Por fim, reconheço que sempre me interessei pelas expressividades do software, pelo que cedo resolvi experimentar utilizá-lo, não tanto para a programação em hipermédia, mas para a produção literária…

ELR: Numa obra de literatura digital autores/as e leitores/as são ambos confrontados com novas tipologias de criação, publicação e fruição de obras literárias. Entende a literatura digital como uma experimentação literária?

RUI TORRES: Sim, entendo a literatura digital como uma experimentação literária. Mas admito que toda a criação é experimentação, por isso talvez seja melhor clarificar este conceito, já que ele é contestado e criticado por vários poetas de inovação, do concretismo à poesia visual. Não situo o experimentalismo num dado período, mas como uma tendência intemporal para o jogo, a relação lúdica com a linguagem, a ergodicidade textual e os maquinismos semióticos. Mas há que reconhecer que toda a arte é, de certa forma, experimental, já que ela promove, no acto da sua construção, uma relação de deformação do real, de actuação com o espaço e o tempo humanos. O problema da arte e da literatura experimental situa-se no momento em que passam desse estado de performatividade, mutável e líquido, para uma certa literariedade, isto é, quando se transcodifica a acção integradora e actuante da arte num espaço filológico de museu. Por isso, de facto, talvez a literatura digital, a par da performance, constitua o melhor exemplo de experimentação literária, já que depende de procedimentos variáveis e de metamorfose.

ELR: Em alguns dos seus trabalhos, tais como Tema procura-se (2004) e Mar de Sophia (2005), combinou texto escrito com som ambiente e uma voz a recitar texto. Em que medida a multimedialidade determina a fruição e, consequentemente, a estética da obra literária?

RUI TORRES: O meu objectivo era precisamente essa integração, principalmente de som e texto, mas nesses dois exemplos, como aliás em todos os meus trabalhos, o procedimento fundamental é a aleatoriedade da e na geração textual, por isso embora se trate de uma multimedialidade, ela não é linear. Interessa entender a complexidade estrutural que o algoritmo introduz no tratamento da linguagem. Embora o surrealismo, por exemplo, tenha tentado afastar a criação literária da subjectividade autoral, que sempre vem acompanhada de um determinado reportório e de um certo número de convenções, os processos eram processos criativos humanos, portanto derivados, até certo ponto, de uma cultura. A utilização da combinatória maquínica afasta esse aspecto pré-adquirido pela introdução de um nível de complexidade enorme: a maioria dos textos que programo são variáveis e não fixos ou pré-determinados, alguns deles entregando ao leitor a activação de possibilidades textuais que são uma entre vários milhões…

ELR: Na grande maioria dos trabalhos da sua autoria o/a leitor/a tem a possibilidade de criar texto, guardá-lo e publicá-lo no blogue. Qual a importância da interactividade por parte do utilizador nas obras de literatura digital e qual o relevo da criação de uma memória do processo?

RUI TORRES: Esse exemplo apontado é um dos modos de interactividade. Há outros, eventualmente mais ricos, como a possibilidade de alterar a própria obra, conferindo-lhe uma certa mutabilidade ou variabilidade. A indeterminação dos processos poéticos que programo (sempre de uma forma colaborativa) obrigaram-me precisamente a considerar a possibilidade de usar um dos mecanismos retóricos da web 2.0, os blogs, para criar uma espécie de diário de bordo da comunidade de leitores destes poemas.

ELR: Tendo em consideração a rápida evolução das linguagens informáticas, do software e dos dispositivos electrónicos, quais as estratégias disponíveis para arquivar e preservar trabalhos literários nativos do digital?

RUI TORRES: Esse é de facto um aspecto fundamental. Eu julgo que a preservação deve estar acima das nossas preocupações com a obsolescência, embora ambas se articulem. Se quisermos estar sempre a seguir a última tecnologia para não ficarmos com trabalhos obsoletos (isto é, ilegíveis), acabamos reféns da retórica da inovação e da novidade; somos presas fáceis da política do software, que naturalmente interfere na camada cultural. Assim, devem os autores escolher livremente as ferramentas que usam nos seus processos criativos, mesmo sabendo à partida que algumas delas poderão eventualmente tornar-se obsoletas. Neste sentido, as ferramentas de código aberto, baseadas num procedimento associado ao software livre, são mais adequadas para garantir preservação a longo prazo. Mas fundamental é que os autores disponibilizem as fontes dos seus programas, documentando todo o processo e tornando acessíveis ao público esses materiais não encriptados que tornarão possível uma futura arqueologia das plataformas e das aplicações.