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#ELRPROMO: ELO Conference 2017 “Afiliações, Traduções, Comunidades”

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No próximo mês a Universidade Fernando Pessoa, da cidade do Porto, receberá a edição de 2017 da Conferência anual da Electronic Literature Organization, neste ano sob o moto “Afiliações, Traduções, Comunidades”. O blog ELR realizou uma entrevista com o presidente da organização desta edição, Rui Torres, professor associado da Universidade Fernando Pessoa e autor de várias obras de literatura eletrônica.

Co-edição por Maíra Borges Wiese

 

ELR: Rui Torres, pela segunda vez Portugal organiza uma conferência internacional de literatura eletrônica. Em 2015, estudiosos e criadores de literatura eletrônica de vários lugares do mundo reuniram-se na Universidade de Coimbra na conferência “Digital Literary Studies“. Como surgiu a proposta deste ano para a Conferência da ELO ?

Rui Torres: Uma pequena nota, antes de responder à pergunta: eu fiz parte da comissão científica do DLS, em Coimbra, e espero que ele continue por muitos anos. No entanto, esta conferência (ELO’17) talvez seja um pouco diferente, desde logo porque é especificamente sobre literatura electrónica, ao contrário do DLS que é mais abrangente, ligando-se por isso às humanidades digitais. Os temas DLS foram análise computacional de texto, filologia digital, ensino, acesso aberto… É verdade que também se abordou a criação literária, mas não como ponto base de reflexão.

A proposta de organizar a ELO’17 no Porto surgiu como reconhecimento de um trabalho que temos vindo a realizar na Universidade Fernando Pessoa desde há  duas décadas. O Pedro Barbosa (ex-professor da UFP, fundador do Centro de Estudos em Texto Informático e Ciberliteratura) trabalha na criação, e também na teorização, da literatura electrónica, desde os anos 1970.

Esta conferência surge também no seguimento da publicação que fiz com o Sandy Baldwin com ensaios portugueses sobre intermédia e ciberliteratura traduzidos para inglês, “PO.EX: Essays from Portugal on Cyberliterature and Intermedia by Pedro Barbosa, Ana Hatherly, and E. M. de Melo e Castro” (West Virginia University Press, 2014).

Por fim, como membro do Board of Directors da ELO, cumpro uma das minhas funções, que é organizar eventos relacionados com a ELO.

ELR: Qual foi o maior desafio encontrado na organização deste evento?

Rui Torres: A mediação entre culturas diferentes (a ELO, por um lado, com as suas raízes norte-americanas; e o Porto, em Portugal), mas também a organização de múltiplas tarefas (Conferência, Festival, Exposições), alguma dificuldade em encontrar patrocinadores para as exposições, e a organização e preparação das exposições elas mesmas. Se fosse apenas uma Conferência científica… Mas não: são 5 dias de actividades, das 9h até às 23h… em cinco espaços distintos.

ELR: Um dos tópicos da Conferência é «Comunidades».Pode-se dizer que há um desenvolvimento das pesquisas acadêmicas nas universidades de Portugal? O que diria sobre a atual situação dos estudos sobre literatura eletrônica no país?

Rui Torres: O programa de doutoramento em Materialidades da Literatura, coordenado pelo Manuel Portela na Universidade de Coimbra, é talvez o mais importante espaço de investigação nestas áreas, pelo menos nestes últimos anos.

Eles (MatLit) são, aliás, um dos parceiros da Conferência, nomeadamente pela participação de vários curadores com origem ou sede de trabalho na Universidade de Coimbra, mas também nas comissões científicas do Festival e da Conferência.

Há depois duas revistas que têm dedicado o seu espaço para a divulgação de pesquisas nesta área: a Revista Cibertextualidades, que eu fundei e coordeno, com sede na UFP; e a revista MatLit, associado ao programa com o mesmo nome da UC.

Há muito trabalho sobre artes digitais, nomeadamente nas Faculdades de Belas-Artes do Porto e de Lisboa, há o Future Places no Porto, o Artech, etc. Mas são abordagens muito abrangentes, que acabam por não se focar (intencionalmente) num tema específico, como é o caso da ciberliteratura.

ELR: Outro grande tema da Conferência é «Afiliações», que parece dar especial atenção às práticas de re-leitura, recriação e remediação digitais de obras criadas em materialidades diversas, mas não-digitais (com ênfase nas criações mais experimentais características do século 20). Como percebe a importância da materialidade digital para a preservação, divulgação e revisitação da tradição literária e de obras de movimentos de vanguarda e experimentais ainda pouco conhecidas?

Rui Torres: Esse é o aspecto central da nossa abordagem nesta conferência.  As três strands da Conferência (Afiliações, Comunidades, Traduções) pretendem estruturar diálogos e debates, criando um diagrama da literatura eletrónica e ampliar a consciência da história e da diversidade do campo. Nesse sentido, pretende-se contribuir para deslocar e re-situar os pontos de vista e as histórias sobre a literatura eletrónica, construindo desse modo um campo maior e mais expansivo, mapeando relações textuais descontínuas entre histórias e formas.

O tema “Afiliações” relaciona-se com o facto de entendermos a literatura eletrónica como trans-temporal, com histórias (anda) por contar. Para tal, propomos abordar perspectivas diacrónicas e genealógicas, possibilitando os estudos comparativos, dando espaço para uma arqueologia das relações ​​entre a literatura eletrónica e outras práticas expressivas e materiais, como a poesia barroca, o futurismo e dada, o concretismo, a videopoesia, etc. Claro que nos interessam estas arqueologias no sentido de identificar o modo como essas formas expressivas são recriadas e transcodificadas em formas digitais de literatura, mapeando assim os antecedentes estéticos e materiais da literatura eletrónica.

ELR: Serão os participantes portugueses maioria nesta edição da ELO Conference? O que você espera da receção do evento e de seu impacto para o desenvolvimento do interesse – desde por parte de alunos na fase escolar ou universitários às pessoas da comunidade em geral – por literatura eletrônica?

Rui Torres: Apenas 10% dos participantes são portugueses. Temos 20 participantes de Portugal, principalmente alunos de doutoramento. São principalmente investigadores de Coimbra, mas também do Porto, de Braga e da Madeira, e há pelo menos 4 portugueses que estão a trabalhar ou a estudar no estrangeiro que também vêm ao Porto falar sobre o seu trabalho. Temos ainda representantes da língua portuguesa, de Cabo Verde e do Brasil. Considerando que temos aproximadamente 250 participantes de 35 países diferentes, julgo que podemos concluir que se trata de um evento internacional, mais do que orientado para participantes portugueses.

O facto de o Festival e as Exposições serem abertos à comunidade, sem necessidade de pagamento de fee, pode ajudar a disseminar um pouco estas novas formas de escrita. A ver vamos!

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Written by ELR

June 18, 2017 at 10:00 am

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